
Durante muito tempo, o sucesso de um destino turístico foi associado à quantidade de visitantes que conseguia atrair. Quanto maior o fluxo, melhores pareciam ser os resultados. Essa lógica, no entanto, vem sendo questionada à medida que destinos ao redor do mundo enfrentam os impactos provocados pelo turismo excessivo.
Nos últimos meses, diferentes cidades e atrações voltaram às manchetes por adotarem medidas para controlar o fluxo de visitantes. Barcelona mantém o plano de eliminar, até 2028, as licenças para apartamentos turísticos de curta temporada. Veneza cobra uma taxa de acesso em determinados períodos, enquanto Amsterdã restringe novas atividades relacionadas ao turismo de massa. Machu Picchu também estabelece limites de acesso, e Fernando de Noronha mantém há anos mecanismos de controle da capacidade de visitação.
Em alguns destinos, a pressão chegou a um ponto em que comunidades passaram a questionar até mesmo os benefícios de reconhecimentos internacionais associados ao turismo. O cenário mostra que o problema não está necessariamente na presença de visitantes, mas na falta de planejamento capaz de equilibrar desenvolvimento econômico, preservação ambiental e qualidade de vida.
O turismo está entre as atividades com maior capacidade de gerar emprego, renda, oportunidades de empreendedorismo e valorização do patrimônio cultural e natural. No entanto, quando o crescimento da demanda supera a capacidade de gestão de um território, os impactos passam a ser sentidos por moradores, empresas e visitantes.
Infraestrutura sobrecarregada, aumento do custo de vida, congestionamentos, pressão sobre recursos naturais, descaracterização cultural e conflitos com comunidades locais estão entre os sinais de um destino que passou a receber mais visitantes do que consegue acolher de maneira sustentável.
O que é overturismo?
O overturismo ocorre quando a demanda turística cresce mais rapidamente do que a capacidade de um território de administrar seus impactos. Essa capacidade não envolve apenas infraestrutura física, mas também aspectos ambientais, urbanos, culturais, sociais e até mesmo a percepção dos moradores sobre a atividade.
O problema se agrava quando a população local deixa de perceber os benefícios econômicos e sociais do turismo e passa a conviver principalmente com os custos provocados pelo excesso de visitantes. Os impactos também atingem quem viaja. Destinos superlotados podem apresentar filas, atrações congestionadas, dificuldades de mobilidade, preços elevados e experiências menos autênticas. Quando a comunidade deixa de viver bem e o visitante encontra um território saturado, ambos acabam prejudicados.
Por isso, enfrentar o overturismo não significa necessariamente reduzir os roteiros ou impedir a chegada de visitantes. O desafio está em qualificar a atividade e distribuir melhor seus benefícios.
Durante anos, a quantidade de visitantes foi utilizada como um dos principais indicadores de sucesso do turismo. O cenário atual, porém, aponta para a necessidade de considerar também a qualidade da experiência oferecida a quem visita e a quem vive no destino.
Essa responsabilidade é compartilhada por governos, iniciativa privada, comunidades locais, profissionais do setor e viajantes.
O poder público tem papel fundamental no planejamento, na infraestrutura, na gestão territorial e no uso de dados para acompanhar os fluxos turísticos. Já o mercado pode contribuir com produtos que distribuam melhor a demanda, valorizem destinos emergentes, incentivem viagens na baixa temporada e ampliem o tempo de permanência dos visitantes.
A participação das comunidades locais também é essencial para que as decisões sobre o desenvolvimento turístico respeitem as características, a identidade e o modo de vida de cada território.
Os próprios viajantes fazem parte dessa equação. Respeitar costumes, patrimônio, meio ambiente e moradores é fundamental para uma experiência turística responsável. As operadoras de turismo também podem desempenhar um papel estratégico no combate ao overturismo. Ao estruturar roteiros que combinam diferentes destinos e experiências, elas contribuem para desconcentrar os fluxos turísticos e ampliar os benefícios econômicos para outras comunidades.
A diversificação pode estimular viagens em diferentes períodos do ano e apresentar destinos que normalmente ficam fora dos principais circuitos turísticos. Esse trabalho ajuda a enfrentar duas formas de concentração que favorecem o overturismo: a espacial, quando os visitantes se concentram nos mesmos lugares, e a temporal, quando a demanda se concentra em determinadas épocas do ano.
Enfrentar o excesso de visitantes também passa por repensar a oferta turística dos destinos já consolidados. Em vez de concentrar a demanda em um único atrativo ou período, é possível apresentar novas experiências ao longo do ano. Um destino conhecido pelas praias pode ampliar sua oferta com gastronomia, cultura, natureza e bem-estar. Da mesma forma, uma cidade associada ao inverno pode criar novos motivos para receber visitantes durante as demais estações.
Diversificar produtos significa também diversificar públicos, períodos e motivações de viagem, distribuindo melhor os fluxos e valorizando diferentes características de cada território. Ao mesmo tempo, fortalecer destinos emergentes e roteiros regionais amplia o mapa de oportunidades do turismo. A proposta não é substituir locais que já conquistaram espaço entre os viajantes, mas criar novas possibilidades e permitir que mais comunidades participem do desenvolvimento da atividade.
A forma como os destinos são promovidos também influencia a concentração de visitantes. A comunicação turística pode incentivar viagens em diferentes períodos do ano, apresentar experiências menos conhecidas, valorizar a autenticidade e estimular estadias mais longas.
Um destino não precisa ser vendido a partir de um único cartão-postal ou atração. Mostrar a diversidade de experiências disponíveis pode ajudar a distribuir os visitantes e reduzir a pressão sobre os pontos mais procurados. Nesse contexto, promover melhor também significa promover de forma mais equilibrada.
O debate sobre o overturismo convida o setor a repensar como destinos e produtos turísticos são planejados, desenvolvidos e promovidos. O futuro do turismo não depende apenas da quantidade de pessoas que viajam, mas da capacidade de transformar essas viagens em benefícios compartilhados entre visitantes, empresas, trabalhadores e comunidades.
Mais do que receber cada vez mais turistas, o desafio está em construir destinos onde a atividade turística possa crescer de maneira planejada, preservar seus recursos e manter a qualidade de vida de quem vive no território. No fim, o melhor destino não é necessariamente aquele que recebe mais turistas, mas aquele onde quem vive continua querendo viver e quem visita deseja voltar.




